Cuidados digitais na perspectiva da RTCD

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Muita gente nos pergunta o que seriam os “cuidados digitais” sobre a qual não só falamos, mas que dá nome e sentido à nossa existência, já que o mais comum no Brasil é ouvirmos falar sobre “segurança digital”. De entrada é preciso entender que a diferença não é apenas de nomenclatura, mas é conceitual e metodológica:

O cuidado digital é uma forma de abordar a segurança digital a partir da perspectiva do cuidado cotidiano. Uma vez que o online e offline são indissociáveis, e que as tecnologias digitais fazem parte do nosso dia a dia, o que afeta nossos dados impacta também nossos corpos. Assim, na perspectiva dos cuidados digitais, cuidar dos nossos dados é também cuidar do nosso corpo, e esse cuidado precisa ser feito cotidianamente, como um hábito, uma cultura, uma política.” (Amarelu e Foz, 2022)

Pensar no cuidado digital, na verdade, antecede (ou caminha junto) as experiências que podemos ter na internet. Alguns anos atrás, em um exercício feito durante uma das nossas formações, ficou nítido que o cuidado digital possui a mesma importância dos cuidados cotidianos, como o cuidado doméstico, com atitudes que adotamos para evitar acidentes ou qualquer risco, exemplo disso é trancar bem a porta da rua, fechar o gás, tirar eletrônicos da tomada quando está trovejando ou tendo pane de eletricidade.

Tem a mesma importância que o cuidado corporal, como passar filtro solar, beber água, fazer exercício e alongar. Ou o cuidado com nossos objetos pessoais, como trancar a bicicleta no cadeado, não colocar a senha do banco junto com o cartão, não falar ao celular na rua. Entre outras prevenções como não dirigir com sono, ter uma chave extra para nossa casa, não usar a mesma chave para abrir a porta da rua e as portas dos quartos. Enfim, todo tipo de cuidado e prevenção que aprendemos ao longo da vida.

Então, ter cuidado com nossos acessos, nossas senhas e nossas localizações na internet é cuidar do nosso corpo, da nossa casa, dos nossos objetos e da nossa saúde. Recentemente o Brasil aprovou o ECA Digital, esta é uma Lei importante para reforçar os cuidados e as prevenções a danos contra crianças e adolescentes que muitas vezes estão vulnerabilizados quando usam as redes digitais. A mesma coisa vale para a Lei da Misoginia que está em tramitação, é uma forma de combater a violência física e digital contra mulheres.

É possível afirmar que o intuito do cuidado digital também é a segurança digital. Mas ultrapassa a questão tecnicista e considera as personas políticas de cada pessoa, seus grupos e suas comunidades.

Buscamos combater ou evitar os riscos e as violências que nos amedrontam na internet, mas que nem sempre temos inferência ou controle sobre elas, então nos dedicamos a criar estratégias individuais e coletivas para combater e evitar invasões, golpes, xingamentos, entre outras ocorrências e recorrências. Afinal, nós queremos mesmo é nos divertir, ver uns memes, rir de umas piadas, colocar nossa beleza pra jogo, não é mesmo? Mas por mais incrível que possa ser, muita gente está disposta a acabar nossa alegria e criar estratégias de ataques contra nós.

A quem interessa o cuidado? Quem merece receber o cuidado? Quem se sente segure?

Metodologicamente, como indicamos, nossas atividades trazem contextualizações que aproximem nossa audiência da dimensão do cuidado digital, buscamos criar um ambiente familiar que relacione a vida online e offline, no sentido de que o vocabulário não assuste, que os riscos e danos apresentados não criem pânico. Acionamos a memória afetiva com aquilo que pode ser lido como cuidado, quem cuidou e como cuidou, quais estratégias familiares foram adotadas ao longo da vida como forma de proteção.

O livro de receitas cuidadosamente guardado e armazenado, a caixa de ferramentas, a coleção de selos, o baú de crochê, a contação de história entre outros elementos que trazem métodos de cuidado, são todos trazidos para o âmbito do cuidado digital. Só então, avançamos para a operação técnica, para a autenticação de dois fatores, para a criptografia e instalação do Signal.

A linguagem afetiva é nossa principal estratégia metodológica na aplicação dos cuidados digitais.

Referências:

Amarelu e Foz (org.). Cuidados digitais e filantropia: Achados e Recomendações básicas. 2022. Cuidados-digitais-e-filantropia.pdf